17/02/23

A eletrificação do transporte como solução na transição energética

Matriz energética mundial

Diante do contexto de aumento da temperatura da superfície terrestre pelo aquecimento global, estão ocorrendo, em diversas regiões, situações extremos, como ondas de calor, secas e fortes precipitações, o que demanda a redução das emissões de CO2 por meio da diminuição do uso de combustíveis fósseis como matriz energética. Em contrapartida, como apresenta o relatório de Eletromobilidade dos Estudos do Plano Decenal de Expansão de Energia 2032, feito pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em parceria com o Ministério de Minas e Energia (MME), divulgado em janeiro de 2023, a demanda do carvão e do petróleo nunca foi tão intensa como hoje. Contudo, o documento aponta que não haverá transição energética nas próximas décadas sem a presença do elemento fóssil.

O relatório também defende que é preciso aliar a transição energética à inclusão social. Cerca de 760 milhões de pessoas oriundas de países emergentes ainda não contam com acesso à eletricidade, além de 2,5 bilhões não acessarem a cocção limpa (possibilidade de cozimento salubre de alimentos). Para suprir essa demanda social com energia limpa, seria necessário sete vezes mais investimentos em tecnologia — U$150 bilhões por ano, segundo a International Energy Agency (IEA). A EPE caracteriza tal contexto como “desafiador” e aponta como um dos caminhos, tanto para a demanda crescente de carvão e petróleo como para inclusão social, a eletrificação do transporte rodoviário.

A venda de veículos elétricos, hoje, concentra-se em países da Europa, bem como nos Estados Unidos e na China. A frota de veículos elétricos foi superior a 16 milhões e acredita-se que, apenas no ano passado, a venda possa ter atingido 10 milhões. Mesmo que ainda sejam uma porção pequena, considerando-se a frota mundial de 1,3 bilhão, os números já mostram uma evolução.

Quanto à evolução dos veículos elétricos, percebe-se que, durante sua aquisição, atraem compradores tanto o aumento de disponibilidade de modelos quanto a queda na preocupação com sua autonomia do automóvel, já que houve um aumento de BEVs (Battery Electric Vehicle) superiores a 300 km. É preciso pontuar que subsídios fiscais também foram importantes no aumento da atratividade, como a disponibilidade de carregadores públicos na China e em países europeus.

Os preços, mesmo diferentes dos veículos tradicionais, começaram a se equivaler na China, além de que 18 das 20 principais montadoras se comprometeram a alcançar metas de produção de elétricos. Diante de todo esse cenário, a IEA estima que, em 2030, a frota possa aumentar até 60% — com penetração atual de 5% nos Estados Unidos e 15% na China e na Europa. A realidade é diferente na América Latina, onde ocorre apenas 1% de penetração dos veículos elétricos.

O relatório também projeta que a demanda por baterias e todos os componentes da cadeia logística da sua produção — a exemplificar por cobalto, lítio — possa aumentar sete vezes até 2030. Nesse quesito, verificam-se questões geopolíticas delicadas porque a produção de minerais críticos como os citados é concentrada em determinadas regiões, além de serem proibidos em locais de estresse hídrico, sendo a China, a principal produtora de cobre, níquel, cobalto e lítio. O relatório pontua, assim, que serão necessários investimentos em nações com o custo de mão de obra mais elevado, com mais controles e regulações para diminuir riscos geopolíticos.

Outro cenário apontado é a escassez de baterias para suprir o aumento de veículos elétricos. Não apenas pela demanda, mas principalmente pelo aumento do preço do lítio e do níquel, o aumento do valor da bateria, nesses cenários, pode corresponder a uma alta de 6% em seu custo.

É necessário, também, que seja realizado investimento na infraestrutura para possibilitar a instalação de carregadores. O custo de tal demanda pode subir muito em áreas rurais pela necessidade de novos cabos e subestações, o que prejudica o incentivo de veículos elétricos no campo.

No Brasil, percebe-se, como apontado pela EPE, uma pressão menor para o emprego de veículos elétricos, a ponto de o país não ter definido metas de eletrificação. Dentre os motivos, estão: não depender de importações energéticas; possuir mercado consolidado de biocombustíveis; ter demanda inferior de redução da poluição, além de tal medida disputar espaço com outros propostas que promovam crescimento e distribuição de renda (até mesmo considerando que a crise a partir de 2014 reduziu a renda das famílias e aumento do preço de automóveis). Apesar disso, os licenciamentos registrados mostram crescimento de 300% em veículos com bateria entre 2021/2022.

Outras barreiras encontradas no Brasil para veículos elétricos são o desempenho e o custo de baterias, a dificuldade de acesso de componentes para sua fabricação, a necessidade de investimentos elevados para postos de recarga — ainda muito concentrada em São Paulo –, a ausência de embasamento regulatório para precificação da energia, bem como a necessidade de investimentos em tecnologias e o impacto nas tarifas públicas.

Além, é claro, do entrave principal: o preço do veículo.

A eletrificação, aqui, está sendo incentivada no âmbito estadual e municipal, com isenção de impostos em algumas cidades e estados. Projeta-se aumento de híbrido tanto em automóveis individuais quanto no processo de eletrificação de ônibus em cidades pequenas ou contextos não urbanos.

Assim, o estudo aponta que é uma realidade o avanço do veículo elétrico na próxima década. Para isso, é necessário pensar a demanda de baterias, considerando os problemas apontados de oferta e demanda de componentes para sua produção e o consequente preço, e até mesmo problemas geopolíticos. No Brasil, contudo, a entrada de veículos elétricos ainda não se mostra tão promissora como em outros países, como apresentado, principalmente pela expressividade de biocombustíveis e pela dimensão territorial do país.

Fontes:

https://ourworldindata.org/energy-mix

https://www.iea.org/reports/global-ev-outlook-2021/trends-and-developments-in-electric-vehicle-markets

https://iea.blob.core.windows.net/assets/e0d2081d-487d-4818-8c59-69b638969f9e/GlobalElectricVehicleOutlook2022.pdf

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Autora: Leticia Pilger Editor: Paulo Renato Reche

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