22/12/22

Emprego na eólica crescerá 33% até 2026

Relatório publicado pela Global Wind Organisation (GWO) e pela Global Wind Energy Council (GWEC) em setembro de 2022 aponta um crescimento de 33% na demanda de técnicos nas usinas eólicas no mundo, até 2026. Com isso, prevê-se que mais de meio milhão de técnicos treinados serão necessários para construir, instalar e manter usinas eólicas no mundo. Diante das diversas vulnerabilidades do sistema energético global (mudanças climáticas e consequente crise energética mundial), a geração de energia eólica é fundamental na transição energética, devido à acessibilidade, à geração de energia livre de carbono, ao desenvolvimento sustentável, bem como à revitalização de comunidades por meio da criação de trabalhos. Projetos de larga escala de eólica diminuem a dependência em combustíveis fósseis.

O documento, realizado com auxílio do Renewable Consulting Group, espera construir a confiança para investimentos e criação de políticas voltadas para a eólica, de modo que propõe três perguntas centrais para que sejam pensadas futuras ações:

  1. Quantos técnicos serão necessários na construção e na manutenção de usinas eólicas nos próximos anos?

Serão necessários 568.800 técnicos capacitados na construção, instalação, operação e manutenção de parques eólicos (é importante mencionar que, nesse número, não estão previstos trabalhadores de outras etapas da cadeia produtiva, como pesquisa e desenvolvimento e indústria de base). O cálculo foi feito a partir da combinação de dados da GWEC sobre a capacidade de instalações com o número de projetos, turbinas e, no caso de eólica offshore, a distância do projeto da costa. No entanto, dentro desse montante, 449.800 ainda não têm treinamento, o que revela a urgência de capacitação para a disponibilização e a segurança nas instalações. O treinamento não apenas garante segurança no trabalho e na construção, como também reduz custo, tempo e viagens. Tal cenário representa uma chamada para colaboração entre indústria, educadores e governos, devido à necessidade de estabelecer centros de treinamento que capacitem a mão de obra para suprir a demanda.

Nesse sentido, a GWEC apresenta que as capacitações mais realizadas pela GWO, em 2021, são nas seguintes temáticas: trabalho em altura, manual de manuseio, combate a incêndios e primeiros socorros.

Segundo a equipe da GWEC, projeta-se um aumento de capacidade anual de 38%, passando de 94GW anuais, em 2021, para 128,8 GW em 2026, justificando, dessa forma, a elevada necessidade de novos profissionais nas áreas de Construção e Instalação (C&I) e Operação e Manutenção (O&M). De acordo com os resultados da pesquisa, 86% dessa força de trabalho estão concentradas em nove países: China, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Vietnã, Índia, Brasil, Alemanha e África do Sul. Juntos, esses países representam 75% de crescimento da fonte eólica até 2026. A imagem a seguir demonstra a quantidade de novos postos de trabalhos em cada país analisado.

 

Fonte: GWO, GWEC, 2022, p. 10.

O relatório estima que usinas offshore pequenas localizadas a 30 km da costa podem utilizar estratégias de O&M instaladas no continente; usinas offshore maiores, principalmente se localizadas acima de 40 km da costa, demandam uma boa quantidade de técnicos permanentes no lugar, havendo necessidade de planejamento de equipes locadas no mar. A partir de dados coletados de 50 projetos eólicos offshore, o documento calcula que são necessárias 0,3 a 0,6 pessoas por turbina para parques eólicos menores ou localizados a menos de 30 km da terra, enquanto 0,7 a 1,5 pessoas por turbina para parques eólicos em projetos maiores ou localizados a mais de 40 km.

Esse contexto permite o desenvolvimento da economia local e nacional por meio da criação de trabalhos e a realocação de trabalhadores do setor de combustíveis fósseis. A partir dos estudos apresentados, são necessárias 129 pessoas para a instalação de uma usina eólica onshore com capacidade de 50 GW, e 913 para a área offshore com capacidade de 500 GW. A demanda, baseada na previsão anual, é de aumento dos 4,6 milhões de módulos em 2022 para 5,5 milhões em 2026.

 

Fonte: GWO, GWEC, 2022, p. 16.

Em uma análise individual de cada um dos países mencionados como promissores para a eólica, o relatório destaca que, no ano passado, teve um recorde de contratação de eólica offshore nos Estados Unidos, com concessão de 8,4 GW em quatro estados. Esse contexto mostra a força, segundo os autores, das metas estaduais e da meta do presidente Biden na entrega de 30 GW até 2030. Ao se comprometerem a reduzir pela metade os níveis de emissão de gases de efeito estuda de 2005 a 2030, os EUA estão expandindo o setor eólico offshore, com mais de 280 hectares para o desenvolvimento de offshore no Golfo do México, região tradicional de exploração de petróleo e gás. Além de realizarem pesquisas por meio de Bureau of Ocean Energy Management (BOEM) para identificar áreas inexploradas potenciais, paralelamente à realização de leilões, como o realizado no começo de 2022 em Nova York, que foi considerado o maior em usina eólica offshore da história estadunidense, leiloando 5,6 GW de capacidade entre seus 6 vencedores. Sendo um dos líderes mundiais do mercado eólico, os EUA também são um dos principais mercados da hibridização, com projetos híbridos de mais de 4 GW em 2021. Contudo, para suportar o crescimento eólico, o país precisará resolver questões relacionadas ao fornecimento de materiais, como cabos e fundações, investir em portos, expandir e modernizar infraestruturas de rede e transmissão, bem como garantir que a mão de obra local esteja capacitada para acompanhar o crescimento de onshore e offshore.

Quanto à China, o relatório mostra que, em 2021, o país se afirmou enquanto líder no mercado de eólica offshore no total de instalações (fornecendo 19,6 GW em apenas um ano, o que corresponde ao triplo de novas instalações ao redor do mundo em 2020), como também é maior produtor de turbinas do mundo. Esse patamar foi possibilitado pelos prazos de acesso a benefício tarifário eólico Feed-in Tariff (FiT). O país também apresenta outras políticas voltadas para a eólica, como aumento da capacidade de transmissão no nordeste do território, planejamento de pelo menos 7 megaprojetos eólicas/solares; projetos híbridos entre eólica, solar e hidrelétrica no sudoeste, e desenvolvimento de cinco parques eólicos offshore na Península de Shandong.

Também na Ásia, o Japão tem potência de se tornar um dos líderes do leste asiático a partir de uma mudança para leilões centralizados, com aumento da eficiência da exploração do recurso eólico. A GWEC prevê 3,5 GW de novas instalações onshore em território japonês entre 2022–2026, e 5,8 GW em offshore entre 2022–2031.

O relatório apresenta o Brasil como líder do mercado da energia eólica da América Latina, com seu alcance de 21GW sendo equivalente a 55% da energia eólica da região. Hoje, 11% da geração de energia vem de matriz eólica, segunda maior fonte de energia nacional, depois da hidrelétrica. É importante apontar que as mudanças climáticas reduziram os reservatórios de água e, consequentemente, elevaram as incertezas quanto às hidrelétricas.

O crescimento da capacidade eólica do país se deve à recuperação econômica do contexto pós-pandêmico e à consolidação da indústria. Como motivos para esse aumento, destacam-se os leilões competitivos, o crescimento de projetos desenvolvidos de forma bilateral pelo mercado livre, e a suficiência na manufatura da indústria no mercado nacional, o que guiou uma base sólida na indústria de energia eólica. A capacidade da cadeia produtiva nacional é suficiente para instalar, anualmente, cerca de 5 GW.

Segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), através de mercados bilaterais, espera-se um investimento de 5,8 bilhões, com instalações de 5 GW em 2022. Para a eólica onshore, a GWEC prevê a instalação de 15,6 GW entre 2022–2026.

Fonte: GWO, GWEC, 2022, p. 37.

Ainda quanto ao cenário brasileiro, é importante pontuar a publicação do Decreto 10.946/2022, que permitiu a transferência de espaço e uso de recursos naturais para usinas eólicas offshore, considerado um sinal positivo para o mercado ao permitir que projetos de eólica offshore de mais de 100 GW sejam licenciados pelo IBAMA.

Conforme a GWEC, a construção da offshore em território brasileiro será realizada entre 2028 e 2031, com capacidade de 3 GW. A EPE almeja, para 2050, instalações de 16 GW, com redução de 20% em custos atuais. Quanto à mão de obra em território brasileiro, espera-se que caia entre 2022 e 2023, pela queda da construção de eólicas onshore; porém, projeta-se que volte a crescer em 2024 com demanda de treinamento de 14.440 pessoas em 2026 com novo ápice de onshore e preparação para a primeira offshore, cujo comissionamento está previsto para 2028.

Nesse meio tempo, há muito trabalho a ser feito, principalmente a capacitação de mão de obra que supra a demanda prevista. O número de técnicos necessários precisa aumentar para suprir o forte avanço da fonte eólica.

Por fim, como indica o estudo, os treinamentos das equipes de C&I e O&M podem ser classificados como necessários à renovação de conhecimento ou não, a Tabela abaixo demonstra todos os módulos existentes e necessários para a realização de capacitações às atividades demandas pelas eólicas onshore offshore.

Fonte: GWO, GWEC, 2022, p. 46.

Nota-se que a capacitação correta das equipes busca reduzir custos de implementação em sua fase de construção, bem como reduzir custos e otimizar a produção energética através das operações e planejamentos adequados de atividades de O&M. Com menores custos e maiores produções de energia por unidade instalada, o Brasil mantém-se como um dos líderes em Fator de Capacidade da fonte eólica onshore mundial, representando segurança ao setor e aos investidores.

Texto: Letícia Pilger

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