06/04/23

Incentivos e alta nos preços de energia causaram diminuição do tempo de payback em investimentos de geração fotovoltaica

Traduzindo o mundo da energia renovável

Em fevereiro de 2023, a Global Solar Council (GSC) publicou, em seu blog, um texto sobre instrumentos de incentivo à construção de usinas solares em telhados residenciais e, devido à qualidade e à relevância da publicação, hoje apresentaremos uma tradução livre do texto.

Hoje, na maioria dos casos ao redor do mundo, o desenvolvimento de usinas de células fotovoltaicas (PV) não requer nenhum tipo de incentivo. De fato, percebe-se a maturidade do mercado solar, sendo que a grande redução dos custos de instalação nos últimos anos e o aumento nos preços da eletricidade em muitos países são os principais fatores para a penetração de empreendimentos de energia solar. No entanto, em determinadas circunstâncias, especialmente para usinas de pequeno ou médio porte, o desenvolvimento ainda requer alguns tipos de incentivos para reduzir o tempo de payback e acelerar a descarbonização da nossa sociedade. Isso possibilitou a criação de vários mecanismos de incentivo ao longo dos anos, o que pode beneficiar consumidores mundialmente. Embora um vasto potencial de energia solar ainda precise ser liberado, mesmo em mercados relativamente maduros, suas experiências podem ser úteis a mercados emergentes na identificação dos melhores instrumentos para o impulso da implantação solar. Olhemos mais perto.

Incentivos são uma grande ferramenta para cortar custos de instalação de PV em telhados, enquanto outros mecanismos oferecem remuneração para a eletricidade produzida e ajudam na diminuição do tempo de payback. Por isso, hoje, a geração fotovoltaica é ainda mais conveniente, visto que permite que se economize nos altos preços das redes de energia e seja gerado lucro.

Além disso, com pacotes de financiamento inovadores, taxas de créditos e descontos na fatura, os custos iniciais são reduzidos, de modo que os produtores de energia solar podem já começar economizando nas contas de luz. Em mercados onde não há a existência de incentivos, principalmente em usinas de pequeno e médio porte, os cidadãos podem influenciar políticos a criarem políticas públicas para acelerar a transição energética: de forma mais generosa onde o mercado está emergindo, e de maneiras variadas onde o mercado é maduro.

Um dos mecanismos mais comuns é a Feed-in Tariff, por meio da qual os produtores da energia solar recebem um preço fixo, por um período determinado (geralmente 15 a 20 anos), por toda a eletricidade gerada (é comum que o preço fixo seja mais alto para a energia injetada nas redes e menor para energia autoconsumida). Um mecanismo semelhante é o Feed-In Premium, pela qual os produtores de energia solar recebem um preço fixo pela energia produzida e, além disso, podem vender a eletricidade gerada e não autoconsumida instantaneamente pelo preço de mercado. Dessa forma, Feed-in Tariff e Feed-In Premium são incentivos que oferecem remuneração pela energia produzida, o que os torna bons instrumentos para estimular o crescimento em mercados emergentes.

Atualmente, em muitos mercados consolidados, usinas de PV de larga escala não precisam mais de incentivos, mas o mecanismo da Feed-in Tariff (mais comum com um preço fixo menor que o do mercado), combinado a contratos de longo prazo, garantidos pelo governo, fornece transparência, previsibilidade e segurança, portanto contribui para um desenvolvimento mais contínuo e estável de mercados de geração solar fotovoltaica. Possibilita-se, assim, um incentivo para maximizar a produção de eletricidade renovável — de modo a manter os sistemas de geração fotovoltaica performando em índices elevados — porque as Feed-in Tariff são baseadas na saída.

Devido às razões mencionadas, em muitos países, a Feed-in Tariff provou sua habilidade para estimular o desenvolvimento do mercado de geração fotovoltaica de forma rápida e em larga escala, bem como a participação de produtores de usinas solares de pequena ou média escala.

Outro mecanismo comum e útil para fomentar investimentos privados nas PV, principalmente onde o mercado está em fase inicial, é o Net Metering. Ele é um instrumento regulatório que permite contabilizar a eletricidade que é alimentada na rede por meio de uma métrica bidirecional que pode medir o fluxo corrente em duas direções. Recentemente, fluxos de energia são balanceados e os consumidores pagam apenas pela eletricidade líquida extraída da rede e consumida. Em outras palavras, pagam apenas pela energia consumida que extrapola o total de energia produzida por usinas de geração fotovoltaica.

Nesse sentido, as redes atuam como uma bateria, permitindo que os produtores de energia solar a usem em qualquer momento, ao invés de apenas quando ela for gerada. Ou seja, como um procedimento contábil, a Net Metering permite que os donos dos sistemas de PV usem a energia gerada durante o dia à noite, ou usem em dezembro a energia gerada em julho.

Porém, esse mecanismo também sobrecarrega as redes de distribuição, porque não estimula o consumo no local de geração ou nas suas proximidades. À medida que o mercado cresce, o sistema ideal deverá incluir o armazenamento de energia residencial e sistemas de resposta à demanda, maximizando o consumo de energia que é produzida localmente e reduzindo o estresse na rede.Em mercados consolidados, tais instrumentos são gradualmente substituídos por outros que atendam essas necessidades e que possam trabalhar de forma mais eficiente enquanto são reduzidos os custos do sistema, como taxas de crédito e incentivos maiores para autoconsumo.

De fato, o autoconsumo atual é o elemento mais importante. Como escrevemos no blog sobre os benefícios da rede: “é importante que as usinas solares em telhados sejam dimensionadas de acordo com a demanda que precisarão suprir, para minimizar o excesso de energia a ser alimentada na rede e reduzir custos de investimentos em armazenamento. Dessa forma, em sistemas ideais, as regulamentações incentivam mais o autoconsumo que a alimentação do excesso de energia na rede justamente para diminuir o estresse na injeção. Ainda, se a energia é produzida no lugar, há menos necessidade de canalizar energia ao longo das linhas de transmissão, o que reduz o estresse na rede de forma geral, diminui a necessidade de implementações de redes de transmissão e previne perdas nas redes de energia, de modo a culminar em economias significativas.”

Comumente, em mercados de geração fotovoltaica consolidados, produtores de eletricidade renovável podem consumir a energia que produzem sem custos adicionais — e otimizar seus gastos no atual contexto de alta de preços de energia — enquanto são remunerados nos mercados pelo excedente de eletricidade inserida na rede. A importância do autoconsumo tem fomentado a criação de incentivos para sistemas de armazenamento que, agora, são geralmente incluídos em taxas de créditos, o que reduz consideravelmente os custos iniciais, ou em um prêmio pela energia autoconsumida.

Desse ponto de vista, a geração distribuída através de comunidades energéticas representa uma evolução crucial para nossos sistemas de energia, assim como para nosso futuro, visto que há a possibilidade de compartilhamento de sistemas fotovoltaicos em comunidades inteiras, o que permite o consumo ainda maior de energia produzida diretamente no lugar. Nas comunidades energéticas, os sistemas de PV precisam ser dimensionados conforme o consumo local agregado da comunidade inteira, no lugar de direcionar o dimensionamento ao autoconsumo de uma residência em particular.

Essas regulamentações de comunidades de energia ainda estão em desenvolvimento ao redor do mundo, mas a União Europeia já estabeleceu diretrizes específicas e alguns Estados participantes as implementaram com incentivos que fomentam remunerações mais altas para a eletricidade renovável produzida por comunidades energéticas e compartilhadas localmente.

Um instrumento adicional usado em determinados mercados é a possibilidade de transmitir taxas de crédito para a companhia que instalar o sistema de geração fotovoltaica no telhado, que, em troca, descontará da fatura do consumidor, além de reduzir a carga de custos iniciais. O papel dos bancos também é importante, tendo em vista que eles determinam pacotes de financiamento para usinas solares de geração fotovoltaica que proporcionem aos consumidores uma porção da remuneração.

O texto original, em inglês, pode ser acessado em: www.globalsolarcouncil.org/incentives-and-high-energy-prices-bring-down-solar-pv-investments-payback-time/

Texto: Global Solar Council
Tradução: Leticia Pilger
Editor: Paulo Renato Reche

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