08/03/23

Um caminho ainda a percorrer: por mais mulheres nas engenharias

Mulheres na Ecotx

Infelizmente, o mundo da tecnologia, ciência e inovação, no qual estão as engenharias, continua desigual na questão de gênero (IRENA, 2020). De acordo com relatório da UNESCO (2017), Cracking the code: Girls’ and women’s education in science, technology, engineering and mathematics (STEM) (Cracking the code: girls’ and women’s education in science, technology, engineering and mathematics (STEM) — UNESCO Digital Library), menos de 30% dos pesquisadores em tecnologia ao redor do mundo são mulheres, de modo que precisamos, dia a dia, possibilitar que mais mulheres entrem e permaneçam na área. Em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres, que marca, antes de tudo, uma luta histórica por mais direitos e pela igualdade de gênero, escrevemos hoje, aqui no blog, sobre duas grandes engenheiras brasileiras, pioneiras no Brasil, e um panorama das mulheres contemporâneas no setor energético. O objetivo é claro: mostrar como as mulheres estão presentes na história da área e são importantes para sua consolidação no Brasil.

Figura 1 — Enedina Alves Marques, primeira engenheira do Brasil.

A sexta mulher da área do país e a primeira engenheira a se graduar em engenharia no estado do Paraná — e a primeira engenheira negra do Brasil — foi Enedina Alves Marques. Ela nasceu em Curitiba em 1913 e, desafiando os padrões acadêmicos e sociais da época, formou-se na Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1945. Filha de escravizados libertos (seu pai, Paulo Marques, trabalhava como lavrador, e a mãe, Virgília Alves Marques, como empregada doméstica), na infância, em troca de estudos, ela trabalhava com a mãe na limpeza da casa da família do militar Domingos Nascimento Sobrinho, que a matriculou na Escola Particular da Professora Luiza Dorfmund e na Escola Normal. De 1932 a 1935, ela trabalhou como professora no interior parananense. Em 1940, novamente em Curitiba, entrou na Faculdade de Engenharia da UFPR e terminou a graduação aos 32 anos. Durante seu percurso, Enedina precisou lidar com preconceito dentro da universidade.

Depois de graduada, ela trabalhou de auxiliar de engenharia na Secretaria de Estado de Viação e Obras Públicas e no Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica. Dentre suas obras, estão a construção da Usina Capivari-Cachoeira (hoje chamada Usina Governador Pedro Viriato Parigot de Souza), em Antonina, a maior usina hidrelétrica subterrânea do sul do país — segundo o perfil da engenheira no “Personalidades do Muro” da UNIFEI (Enedina Alves | Unifei), essa é considerada sua principal realização; o Colégio Estadual do Paraná (CEP) e a Casa do Estudante Universitário de Curitiba (CEU).

Enedina se aposentou em 1962 e foi reconhecida pelo governador Ney Braga, que lhe concedeu uma remuneração equivalente ao salário de um juiz. Ela morreu em 1981 e, em 1988, foi homenageada com o nome de uma rua no bairro Cajuru, em Curitiba. Em 2000, foi incluída no Memorial à Mulher Pioneira do Paraná, de Curitiba; e, em 2006, fundou-se em Maringá o Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques. No seu aniversário de 110 anos, em 13 de janeiro de 2023, ela foi homenageada pelo Google.

Figura 2 — Homenagem do Google à Enedina Alves Marques

Ela também foi homenageada pela professora de matemática aposentada da UTFPR Lindamir Salete Casagrande no livro infantil Enedina Marques — Mulher negra pioneira na engenharia brasileira, publicado em 2021 na série Meninas, moças e mulheres que inspiram, da editora InVerso, e ilustrado por Lhaiza Morena (Enedina Marques | Editora Inverso).

Figura 3 — Enedina Marques: mulher negra pioneira na engenharia brasileira

O livro, que foi finalista do Prêmio Jabuti no ano passado, tem como objetivo resgatar mulheres da área de exatas e tecnologia para incentivar mais mulheres a adentrar a pesquisa e a ciência. Segundo a autora, em publicação no site da editora, “Foi uma mulher fantástica que todo o país precisa conhecer e eu quero que o livro chegue em todas as escolas para que mais meninas, e, principalmente, meninas pretas, se inspirem e enxerguem que a engenharia também é possível para elas”.

Figura 4 — Maria Luiza Soares, primeira engenheira eletricista e mecânica do Brasil

A carioca Maria Luiza Soares Fontes foi a primeira engenheira eletricista e mecânica no Brasil. Filha de um funcionário do Ministério da Guerra, nasceu em 1924 e sonhava em cursar Medicina, no entanto, diante da negativa do pai, em 1945, entrou em 15º lugar no Instituto Eletrotécnico de Itajubá (IEI), onde estudou gratuitamente por ser a primeira mulher da instituição. Ela se formou em 1950 no Instituto de Engenharia de Itajubá e passou a trabalhar, a partir de 1951, na padronização do Plano Postal dos Correios no Rio de Janeiro. Na década de 1960, realizou um curso de mecanização postal em Paris com uma bolsa do governo francês. Segundo seu perfil no Personalidades do Muro da UNIFEI, “Fazia especificações para montagem de subestações, de qualidade de fios de cobre com alma de aço para linhas aéreas, de cabos subterrâneos”.Em entrevista ao CONFEA (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), em 2010, ela relatou que “Sempre quis ser independente e achei que conseguiria com a engenharia, apesar de ter ficado apreensiva pelo fato de saber que eu seria a única mulher na turma”. Maria Luiza morreu, aos 92 anos, em 2017 e seu trabalho é reconhecido como importante para o Sistema Confea/Crea e Mútua.

Hoje, felizmente contamos com uma gama muito maior de mulheres no mundo da engenharia e do setor energético brasileiro. Destacamos o trabalho da economista e doutorada em Engenharia da Produção Elbia Gannoun, que atua, desde 2011, como CEO da ABEEólica (Associação Brasileira de Energia Eólica) e se mostra ativa no fortalecimento da energia eólica no país. Em 2019, ela recebeu o prêmio “C3E — Clean Energy Education & Empowerment — Woman of Distinction Award”, do Clean Energy Ministerial e da International Energy Agency. Em 2020, ela foi convidada para participar Global Wind Energy Council (GWEC) como vice-presidente, e desde então tem trabalhado para conectar as associações de energia eólica do mundo, além de focar na transformação da área para possibilitar a equidade de gênero.

Também mencionamos a advogada Bárbara Rubim, que é especialista em regulação do setor elétrico e CEO da Bright Strategies, voltada para empreendimentos em energias renováveis, além de ser vice-presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) e conselheira da Latin American and Caribbean Council on Renewable Energy and Energy Transition; e a Alessandra Torres de Carvalho, presidente da Associação Brasileira de PCHs e CGHs (ABRAPCH)s que passou, entre 2001 e 2007, pela Aneel — Agencia Nacional de Energia Elétrica, que tem forte atuação nos processos de licenciamento ambiental em relação às PCHs.

Figura 5 — Alessandra Torres em evento da ABRAPCH

Reiteramos a importância de ações como o programa Women in Wind, da Global Wind Energy Council (GWEC), que corresponde à mentoria de mulheres no mundo do setor de energia eólico; as bolsas de estudos da British Council Women in STEM, que auxiliam mulheres a entrarem e permanecerem na área de tecnologia; bem como de mais eventos como o II Congresso Brasileiro de Mulheres da Energia, que acontece hoje em Brasília. Com a presença e a divulgação do trabalho de mulheres no setor energético, conseguiremos a tão necessária igualdade de gênero e progredimentos na expansão e na democratização da energia elétrica.

Feliz dia das mulheres para as mulheres da Ecotx!

Figura 6 — Mulheres na Ecotx. Da esquerda para a direita: Lucilene, Júlia, Alessandra, Izabela, Lais e Janiny. Estão ausentes na foto: Denise, Ellenize, Aicha, Thayse, Sylvia, Cristina e Glaucia.

Fontes:

https://unifei.edu.br/personalidades-do-muro/extensao/enedina-alves/

https://www.editorainverso.com.br/pagina-de-produto/enedina-marques

http://jimaengenharia.com.br/tag/primeira-engenheira-mulher/

https://revistaea.org/artigo.php?idartigo=2180

https://mulheresdaenergia.com.br/

https://gwec.net/women-in-wind/about-the-program/

Texto: Leticia Pilger